Alô, Alô Marciano: nada mudou (ainda)
Há canções que envelhecem como móveis de fórmica: datadas, simpáticas, mas presas a um tempo que não volta. E há outras que envelhecem como diagnósticos incômodos: quanto mais o tempo passa, mais certas parecem. Alô, Alô Marciano pertence, sem pudor, ao segundo grupo. Lançada em 1980, gravada por Elis Regina e concebida por Rita Lee e Roberto de Carvalho, a música soa hoje menos como sátira pop e mais como boletim contínuo de uma civilização que insiste em tropeçar nos próprios escombros.
A ideia é simples, quase infantil: alguém liga para um marciano para contar o que anda acontecendo na Terra. Mas é justamente nessa simplicidade que mora a força do texto. O recurso do “estrangeiro absoluto” — aquele que observa de fora — é antigo na literatura, de Luciano de Samósata a Montesquieu, passando por Swift. Rita e Roberto sabiam muito bem o que estavam fazendo: falar do mundo como se ele fosse tão absurdo que só um extraterrestre poderia entendê-lo sem rir ou chorar.
“O fato de a música ter sido considerada “terrível” por parte da crítica da época diz mais sobre a crítica do que sobre a obra. Canções que incomodam raramente são abraçadas de imediato. Elas não oferecem catarse fácil nem heroísmo reconfortante. Alô, Alô Marciano não propõe solução, não aponta redenção. Apenas descreve. E descrever bem o caos é, muitas vezes, mais subversivo do que discursar contra ele.”
Em 1980, o Brasil saía lentamente de uma ditadura, o mundo ainda vivia sob a sombra da Guerra Fria, e a expressão “high society” carregava um verniz irônico que misturava elitismo, alienação e cinismo social. Quarenta e cinco anos depois, o verniz caiu, mas a madeira podre continua a mesma. Mudaram as tecnologias, os jargões e os inimigos do momento. A guerra segue sendo “pra variar”. A crise continua “virando zona”. E o “cada um por si” ganhou status de ideologia oficial, com direito a slogan motivacional e perfil verificado nas redes sociais.
A música também é uma aula de como o humor pode ser cruel sem ser grosseiro. Quando Elis canta “tem muito rei aí pedindo alforria”, não se trata apenas de uma piada política de época, mas de uma constatação estrutural: elites só defendem a ordem enquanto ela lhes é confortável. Quando a maré vira, vestem o figurino de vítimas e pedem clemência ao mesmo sistema que ajudaram a deformar.
Um espelho pop da nossa desordem permanente
O trecho “muita patrulha, muita bagunça” talvez seja o mais assustadoramente atual. Ele descreve, com precisão cirúrgica, sociedades que vigiam obsessivamente comportamentos individuais enquanto perdem completamente o controle sobre os rumos coletivos. Patrulha-se a linguagem, o gosto musical, o corpo alheio, o erro mínimo — mas não se patrulham desigualdades obscenas, guerras intermináveis ou a banalização da mentira como método político.
Há também uma ironia fina, quase erudita, no uso do inglês em “down in the high society”. O refrão funciona como um espelho quebrado do colonialismo cultural: a elite que se imagina cosmopolita, sofisticada, globalizada, mas que vive em permanente decadência moral. O inglês entra como adereço chique, não como profundidade real. É pose, não pensamento. Jazz como verniz civilizatório, enquanto o mundo pega fogo no térreo.
O fato de a música ter sido considerada “terrível” por parte da crítica da época diz mais sobre a crítica do que sobre a obra. Canções que incomodam raramente são abraçadas de imediato. Elas não oferecem catarse fácil nem heroísmo reconfortante. Alô, Alô Marciano não propõe solução, não aponta redenção. Apenas descreve. E descrever bem o caos é, muitas vezes, mais subversivo do que discursar contra ele.
Talvez o maior mérito da canção seja justamente sua recusa em envelhecer. Ela não depende de nomes próprios, de eventos específicos ou de modismos passageiros. Fala de guerra, crise, patrulha, bagunça, elite em decadência e humanidade em fissura permanente. É um retrato tão amplo que atravessa décadas sem precisar de retoques.
Se hoje alguém ligasse novamente para o marciano, talvez tivesse de explicar algoritmos, Inteligência Artificial, colapsos climáticos e guerras transmitidas ao vivo em alta definição. Mas, no fundo, a conversa seria a mesma. Com menos ingenuidade, talvez. Com mais cinismo, certamente. E com a mesma pergunta implícita ecoando no espaço: será que, vistos de fora, nós parecemos tão racionais quanto gostamos de acreditar?

Spoiler melancólico: nada indica que sim.
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