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O que sobrará na TV brasileira?

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A televisão brasileira sempre gostou de se imaginar eterna. Ao longo de décadas, atravessou crises econômicas, mudanças políticas, choques tecnológicos e transformações culturais mantendo uma convicção quase teológica: nada substituiria seu poder de alcance, sua centralidade simbólica, sua capacidade de moldar o imaginário coletivo. O problema é que, pela primeira vez, essa convicção não encontra mais respaldo nos fatos.

Não estamos diante de um “fim da TV”, expressão rasa e preguiçosa, usada por quem confunde transformação estrutural com colapso. O que se desenha em dez anos é algo mais complexo — e mais desconfortável: o fim da televisão como sistema hegemônico, como centro organizador do audiovisual, da publicidade e da atenção.

Em 2035, a TV brasileira ainda existirá. Mas não será mais aquilo que imagina ser hoje.

A grande mentira da abundância

Durante anos, operadoras de TV por assinatura venderam a ideia de abundância: 150, 170, 200 canais. Era um argumento comercial poderoso, embora intelectualmente frágil. A promessa implícita era simples: quanto mais canais, mais valor. Na prática, o público sempre consumiu pouco, repetidamente, quase obsessivamente, os mesmos conteúdos.

Esporte, jornalismo, novela, reality, filme reprisado, desenho infantil. O resto era preenchimento, ruído, lastro para justificar preço.

Esse modelo ruiu quando o espectador percebeu algo óbvio: não precisava pagar por tudo para assistir a quase nada. Streaming, pirataria, YouTube, TikTok, FAST channels e redes sociais romperam a lógica do pacote fechado. O controle remoto perdeu autoridade. O guia de programação virou peça de museu.

As principais operadoras — Claro, Vivo, Sky — já entenderam isso, embora evitem dizer em voz alta. Hoje, são empresas de banda larga que ainda carregam a TV como apêndice. Em dez anos, a TV por assinatura será um serviço marginal, quase decorativo, sustentado por contratos corporativos, hotéis, hospitais e consumidores resistentes à mudança.

Não desaparecerá. Mas deixará de importar.

A TV aberta e o mito da resiliência automática

A TV aberta brasileira gosta de se apresentar como invencível. E, em parte, tem razão: ainda alcança mais de 90% do território nacional, fala com públicos diversos e mantém uma força simbólica que nenhuma plataforma digital conseguiu replicar integralmente.

Mas alcance não é sinônimo de poder.

Goste-se ou não, a Globo segue como a única empresa que entendeu, cedo, que a televisão linear seria apenas uma camada dentro de um ecossistema maior. Jornalismo multiplataforma, novelas como franquias, esportes como eventos globais, reality shows pensados para viralização. A TV aberta virou porta de entrada — não mais o destino final. O destino final é a Globoplay!

SBT, Record e Band vivem realidades mais duras. O SBT enfrenta o envelhecimento acelerado de seu público e a dificuldade de renovar linguagem sem perder identidade (principalmente após a morte do seu mentor Silvio Santos). A Record mantém musculatura graças a novelas bíblicas e jornalismo popular, mas depende excessivamente de poucos formatos (e do dinheiro da IURD, claro). A Band sobrevive como emissora de credibilidade jornalística e esportiva, ainda que com audiência raquítica.

Já redes como RedeTV!, Gazeta, TV Brasil, TV Cultura (em outra chave) e emissoras regionais caminham numa zona cinzenta: existem, cumprem função institucional, mas exercem uma influência restritíssima (se é que dá para exercer algo no traço).

A TV aberta não morre. Mas deixa de ser soberana.

Os canais pagos nacionais: entre o encolhimento e a reinvenção

Canais como SporTV, Multishow, GNT, Viva, Bis, Telecine e Premiere representam o núcleo mais sólido da TV paga nacional (goste-se ou não, também do Grupo Globo). Ainda assim, nenhum está imune.

O SporTV se sustenta no esporte ao vivo — último bastião da televisão linear. O Multishow e o GNT perderam parte da força cultural, migrando para um papel mais decorativo. O Telecine vive uma crise existencial: sem exclusividade, sem estreia relevante, sem urgência.

O Premiere continuará existindo enquanto o futebol for um ritual coletivo. Mas mesmo ele já disputa atenção com streaming esportivo, plataformas próprias de clubes e transmissões alternativas.

O destino comum é claro: menos canais, menos investimento, mais dependência do digital.

Arte, cultura e o luxo da resistência

Arte 1, Canal Curta! e Film&Arts são exemplos de um tipo raro de televisão: aquela que não se orienta apenas pelo mercado. São canais que existem por convicção cultural, não por escala. Num ambiente em que relevância costuma ser confundida com barulho, eles seguem apostando em curadoria, repertório e densidade — valores cada vez mais escassos na lógica industrial do audiovisual.

Seu futuro não é o crescimento exponencial, nem a disputa por métricas infladas. É a sobrevivência qualificada. Menos grade engessada, mais acervo vivo. Menos dependência da TV linear, mais presença em plataformas digitais, canais FAST, parcerias educacionais, editoras, museus, festivais e instituições culturais que ainda entendem conteúdo como formação, não apenas como consumo.

Não serão protagonistas da indústria nem disputarão o centro do palco algorítmico. Mas continuarão sendo faróis culturais num oceano de entretenimento descartável — pequenos, persistentes e indispensáveis para quem ainda acredita que televisão também pode ser pensamento.

Os conglomerados estrangeiros e o fim da ilusão premium

Durante anos, a TV paga brasileira foi sustentada por marcas estrangeiras que simbolizavam qualidade: HBO, Warner Channel, Sony, Fox, AMC, FX, History, A&E, Discovery, TNT, Cartoon Network, Disney Channel.

Esse modelo entrou em colapso quando essas mesmas empresas decidiram que o streaming era prioridade absoluta.

A HBO, hoje diluída no guarda-chuva da Warner Bros. Discovery, perdeu sua identidade linear. Sem estreias relevantes, o canal virou uma sombra de si mesmo. O Warner Channel enfrenta o mesmo destino: catálogo esvaziado, repetição excessiva, relevância residual.

Sony, AMC, A&E e History sobrevivem por inércia, mas perdem espaço ano após ano. O público não espera mais a exibição linear — consome sob demanda, quando quer, onde quer.

A Discovery é exceção parcial. Seu conteúdo factual, reality e documental é barato, inesgotável e funcional em múltiplos formatos. Deve sobreviver, especialmente em FAST.

A ESPN permanece forte porque o esporte ainda exige transmissão ao vivo. Mas mesmo ela já caminha para um modelo híbrido, cada vez mais integrado ao streaming da Disney.

A TNT ainda se sustenta porque grandes eventos — esportivos e cinematográficos — pedem transmissão ao vivo e força de marca. Mas, assim como a ESPN, já opera num modelo híbrido inevitável, cada vez mais subordinado à lógica do streaming da Warner Bros. Discovery, onde o canal deixa de ser destino e passa a ser apenas mais uma janela.

O acordo Warner–Netflix simboliza o golpe final

O acordo entre Warner e Netflix é mais do que uma parceria comercial pontual: ele simboliza um ponto de não retorno. Ao licenciar para a Netflix apenas o seu catálogo cinematográfico — inclusive séries e marcas estratégicas como HBO, Game of Thrones, Succession e outras no ecossistema próprio — a Warner Bros. Discovery admite, ainda que indiretamente, que o cinema deixou de ser o pilar exclusivo da TV paga. O filme, antes a joia da grade premium, passa a circular livremente nas plataformas globais, onde escala, dados e alcance valem mais do que exclusividade linear.

O impacto é sobretudo simbólico. Durante décadas, canais como TNT e HBO estruturaram sua relevância em torno da promessa de “filmes primeiro”. Com esse acordo, a TV por assinatura perde sua principal moeda de prestígio: a sensação de acesso privilegiado. Quando o grande cinema está a um clique, no mesmo ambiente em que convivem séries, documentários e algoritmos personalizados, o pacote fechado deixa de fazer sentido como valor aspiracional.

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Mais do que uma derrota da TV paga, trata-se de uma vitória das plataformas como infraestruturas culturais globais. A Netflix não compra apenas filmes: compra tempo de atenção, conversa social e permanência no imaginário coletivo. A Warner, por sua vez, transforma suas marcas históricas em ativos flexíveis, menos dependentes de canais e mais adaptadas à circulação fragmentada do século XXI. A televisão linear, nesse arranjo, não desaparece — mas perde centralidade, poder de sedução e, sobretudo, autoridade simbólica.

O (estranho) movimento dos canais de notícias

Num ecossistema midiático em que GloboNews, Jovem Pan News, Record News (aberta no dial, mas fechada no jogo real), CNN Brasil, Times Brasil (CNBC), BandNews e agora a novíssima SBT News mal arranham a casa de 0.09 ponto no Ibope, a relevância já não se mede apenas pelo controle remoto. Mede-se por influência, circulação entre elites decisórias e capacidade de pautar debates fora da bolha televisiva.

Esses canais — que falam pouco para muitos, mas bastante para poucos — sobrevivem menos da audiência bruta e mais da sua capilaridade entre políticos, executivos, operadores do mercado, assessorias, gabinetes e redações digitais. É o prestígio em uma pequena bolha como fonte de sustentação econômica e midiática.

Canais de nicho: do cabo ao desligamento silencioso

Canais de aventura, moda, lifestyle e entretenimento factual — outrora pilares da TV por assinatura — caminham para um desaparecimento menos ruidoso, porém, mais definitivo. Discovery Turbo, Discovery Science, Animal Planet, History 2, E! Entertainment, Fashion TV, MTV Live, TLC e Travel Box Brasil já vivem uma existência espectral: pouco investimento, programação reciclada, relevância mínima e dependência quase exclusiva de pacotes de TV paga em acelerado declínio.

Esse esvaziamento estrutural ajuda a explicar movimentos mais drásticos, como a saída anunciada de marcas globais do mercado brasileiro. Em 31 de dezembro, canais do grupo Paramount Skydance — MTV, Nickelodeon, Nick Jr. e Comedy Central — devem encerrar suas operações lineares no país, confirmando que o futuro dessas marcas já não está no cabo, mas nos catálogos sob demanda, licenciados a plataformas ou reduzidos a presença digital. O cabo, nesse cenário, deixa de ser vitrine e passa a ser apenas um custo difícil de justificar.

YouTube: a televisão que não pede licença

Enquanto a TV tradicional encolhe, o YouTube consolida-se como o verdadeiro sistema nervoso do audiovisual brasileiro. Não é mais apenas plataforma: é emissora difusa, distribuidora, arquivo, vitrine e escola de linguagem. Canais que nasceram digitais — como GeTV, CazéTV, Desimpedidos, Podpah, Flow, Canal GOAT e tantos outros — orbitam o YouTube com uma naturalidade que a televisão linear jamais conseguiu reproduzir. E, ironicamente, são esses mesmos projetos que hoje aparecem na TV aberta ou por assinatura, emprestando relevância, frescor e público a um meio que já não consegue se renovar sozinho.

Aqui, a lógica se inverte: não é o digital que busca legitimidade na TV, mas a TV que tenta capturar o prestígio, a audiência e o ritmo do YouTube. Lives esportivas, transmissões informais, comentaristas sem terno, linguagem de torcida e interação em tempo real redefinem o que o público entende como “assistir televisão”. O que antes era visto como amadorismo virou padrão; o que era excesso virou proximidade.

Nesse cenário, talvez a pergunta correta já não seja o que sobrará na TV brasileira, mas o quanto da televisão sobreviverá dentro do YouTube — não como canal, mas como linguagem, hábito e memória.

FAST channels: o retorno disfarçado da TV

Curiosamente, o futuro da televisão passa por um formato antigo com roupa nova: os canais FAST (Free Ad-Supported Streaming TV). Pluto TV, Samsung TV Plus, LG Channels e outros recriam a lógica da grade, mas sem assinatura.

São canais temáticos, baratos, repetitivos — e eficientes. Para muitos conglomerados, será o último refúgio linear. Para o público, uma forma de consumo passivo num mundo exausto de escolhas.

A ironia é evidente: a TV não acaba — ela reaparece disfarçada.

TV 3.0: a tábua de salvação imaginária

Apresentada como a grande aposta para reverter a perda de audiência e relevância da televisão aberta, a TV 3.0 surge mais como narrativa de esperança do que como solução estrutural. A promessa de interatividade, publicidade personalizada, integração com o digital e qualidade técnica superior soa moderna, mas ignora o ponto central da crise: o espectador já não abandonou a TV por limitações tecnológicas, e sim por mudanças profundas no hábito de consumo, na relação com o tempo e na expectativa sobre o conteúdo.

Ao apostar que um salto técnico pode compensar um modelo editorial envelhecido, o setor corre o risco de repetir o erro histórico de confundir meio com mensagem. Sem uma transformação real na forma de produzir, distribuir e financiar conteúdos — e sem enfrentar o fato de que o controle migrou definitivamente para o usuário — a TV 3.0 tende a funcionar mais como sobrevida institucional do que como reinvenção genuína. Em vez de ponte para o futuro, pode acabar sendo apenas mais um nome sofisticado para adiar decisões difíceis.

A pirataria como sintoma, não como causa

A pirataria nunca foi o problema central. Ela é o sintoma. Enquanto o conteúdo for fragmentado, caro e exclusivo, haverá alternativas ilegais — cada vez mais sofisticadas.

IPTV, servidores privados, aplicativos clandestinos, listas compartilhadas e P2PTV. Se a TV paga morrer, a pirataria migra. Se o streaming fragmentar demais, ela se fortalece. Não é ideologia: é economia da atenção.

A televisão perde o centro, não a existência

Em 2035, a TV brasileira será menor, mais fragmentada, menos poderosa — e mais honesta. Não ditará hábitos, não organizará o tempo social, não será o altar da sala.

Mas continuará ali: informando, entretendo, resistindo.

O que acaba não é a televisão. É a arrogância de achar que ela jamais precisaria mudar.


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